sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Histórias de Fliperama

Ao sairmos dos consoles domésticos, encontramos os fliperamas, que foram uma febre nos anos 90 e no início dos anos 2000. Atualmente, porém, eles não têm nem metade da popularidade de antigamente. Já mencionei brevemente meu primeiro contato com fliperamas no post sobre a SNK, mas aquilo foi apenas o começo, pois, futuramente, eu frequentaria muito mais intensamente os fliperamas.

Quando comecei a frequentar fliperamas com certa regularidade, no início dos anos 2000, onde moro, e acredito que em quase todo lugar, esse era um ambiente mal visto, um rótulo que eu, por inocência, negava. No entanto, mais tarde, acabei constatando que, de fato, não era exatamente um ambiente para famílias. Locadoras eram tranquilas de frequentar, mas os fliperamas tinham muitos problemas, como a presença de pessoas mal-intencionadas, para citar um exemplo, o que exigia estar sempre atento. Também era um lugar onde se aprendia a jogar e a tirar contra com os amigos.

Moro no interior e, aqui, havia alguns poucos fliperamas. Comecei a jogar em um pequeno estabelecimento na área central, junto com um primo (que Deus o tenha) e um amigo de escola. Todos os dias, depois da aula, íamos ao fliperama. A ficha custava R$ 0,25, e a máquina que mais jogávamos era Tekken Tag e, posteriormente, Tekken 4, mas também nos aventurávamos em The King of Fighters. Nós tínhamos um padrão: jogávamos entre 5 ou 6 fichas, parávamos um pouco, íamos à lanchonete próxima, comíamos um salgado e tomávamos um refrigerante, e depois voltávamos para jogar mais umas 3 ou 4 fichas antes de ir embora. E a prática leva à perfeição, ou quase isso, pois jogando quase todos os dias, desde o fim da tarde até por volta das 20:00, era comum ficarmos bons, ou melhor, viciados nos jogos. No contra, tanto eu quanto meu primo e nosso amigo vencíamos qualquer um que nos desafiasse sem dificuldade. Convencido de minha habilidade, pois quase ninguém me derrotava no Tekken, uma vez, com certa soberba, perdi feio para um rapaz aleatório que fazia combos que eu desconhecia. Ele se tornou nosso amigo e nos deu uma dica: "Vá ao outro fliperama, o da rua de baixo, pois lá é onde jogam os melhores." E assim passamos a frequentar o outro fliperama, que realmente era o local dos feras, e foi ali que aprendi a jogar bem de verdade.

Nesse fliperama, fiz novas amizades, algumas boas, outras nem tanto, mas ali, os contras eram frequentes, e só a galera que jogava bem estava presente. Demorei um ano para treinar e alcançar o nível do pessoal ali. Perdi muitas fichas até alcançá-los, mas quando consegui, jogava de igual para igual com os melhores e cheguei a tirar 29 fichas de uma vez, faltando apenas uma para colocar meu recorde na máquina. Jogava e fazia combos com qualquer personagem, mas a dupla favorita em Tekken Tag era Jin e Kazuya.

A máquina mais requisitada nos fliperamas aqui era The King of Fighters, que era meu jogo favorito de luta, mas eu não era bom e não conseguia jogar tão bem quanto a turma do KOF. Os caras eram ligeiros, não podia bobear que tomava combos insanos. Quando não tinha ninguém na máquina de KOF, eu jogava contra a CPU, jogava razoavelmente bem e conseguia terminar o jogo, mas minha praia mesmo era Tekken.

Esse é o fliperama onde eu jogava. A foto é atual mas 20 anos atrás era lotado.

Certa vez, em um evento na cidade, apareceram uns caras de fora, que chegaram menosprezando por ser cidade do interior, questionando se aqui a gente sabia jogar. Um dos caras dizia ter ganhado 3 campeonatos consecutivos no fliperama onde morava, e ele realmente jogava bem, mas ainda precisava comer muito arroz com feijão para chegar no meu nível. Fiquei quieto, não disse uma palavra e ele entrou no contra. Nos dois primeiros rounds, não dei tempo para ele reagir, foram dois perfects seguidos. Tirei 5 fichas dele sem sequer me esforçar e, bom, chegaram cheios de marra e saíram cabisbaixos.

Lado ruim dos fliperamas

Agora, o lado ruim que mencionei no começo da postagem. Muita gente mal-intencionada, ponto de venda e uso de drogas, e brigas são os principais fatores que aos poucos me afastaram. Contarei uma história quase trágica que aconteceu comigo, mas antes, quero apontar esses fatores. Quando comecei a frequentar, havia alguns problemas, mas eram mais comuns à noite, horário em que eu já tinha ido embora, e à tarde era mais "sossegado", digo entre aspas, pois havia uma coisinha aqui e outra ali, mas eram casos mais leves. Para quem já era conhecido ali para jogar, entrava e jogava com os amigos de boa, e havia galera que ficava do lado de fora, sem incomodar. Infelizmente, na parte da tarde, começaram a aparecer mais frequentemente esses maus elementos, que enchem o saco de quem queria apenas se divertir, pedindo para jogar um round, pedindo dinheiro, cigarro, entre outras coisas. E aos poucos, os mais velhos que iam no fliper só para jogar começaram a se afastar por causa dessas pessoas. Agora, um caso meu que aconteceu por volta de 2003.

Para não ficar confuso, vou explicar alguns fatos antes do ocorrido. Aqui na minha cidade, nessa época, havia duas gangues distintas (ou facções, como queira), e uma dessas gangues começou a dominar o fliperama. Uma certa noite, houve um evento na cidade, uma festa tradicional, e fui com um amigo. Teve show, barracas de comida e bebidas, tudo dentro dos padrões, e curtimos o ambiente numa boa. Voltamos por volta das 21:30, e, nesse momento, um rapaz veio correndo em nossa direção, pedindo ajuda, pois uma turma queria pegar ele sozinho. No desespero e meio que por impulso, pedimos para ele correr na nossa frente, com eu e meu amigo atrás, tampando ele para que os outros não o vissem. Dito e feito: ele conseguiu despistar os caras. Mal sabíamos que esse rapaz que ajudamos era integrante de uma das gangues da cidade. Esses caras são perigosos, mas sabem ser gratos, e logo vão entender como essa atitude acabou me salvando no fliperama.

Com o passar do tempo, eu e meu primo continuávamos a frequentar o fliperama nas tardes, mas o local começou a ser mal frequentado, afastando aqueles que só queriam jogar. Quase todos os dias, a polícia fazia batidas, tornando o lugar mal visto. Em um belo dia, enquanto jogávamos, fomos cercados por cerca de 15 pessoas, membros de uma gangue que estava tomando conta do fliperama. Eles nos ameaçaram, alegando que a fumaça do cigarro do meu primo os incomodava, uma desculpa esfarrapada, já que a maioria dos frequentadores também fumava.

O dono do fliperama interveio, dizendo que não queria brigas ali dentro. Os membros da gangue então disseram que nos espancariam assim que saíssemos para a calçada, por um motivo ridículo, já que nunca havíamos falado com eles. O dono do fliperama desapareceu, e naquela época, celulares não eram comuns, então não podíamos chamar a polícia. Tentamos ficar o máximo de tempo possível dentro do fliperama, "protegidos", enquanto os caras esperavam do lado de fora. Já era noite, quase na hora de fechar, e mais pessoas se juntaram ao grupo para nos pegar, muitos sem saber o motivo, apenas querendo confusão.

Eu disse ao meu primo: "Vamos ter que sair, o fliperama vai fechar. Não temos para onde correr, está tudo cercado. O jeito é apanhar e proteger a cabeça." Nesse momento, um cara apareceu sozinho no meio de todos e perguntou o que estava acontecendo. Era o fulano que ajudei a escapar no começo da história. Ele pertencia a uma gangue rival, maior e mais violenta. Mesmo em maioria, os caras respeitavam ele, pois sabiam que, se arrumassem confusão, as duas gangues entrariam em conflito, e a do fliperama não teria chance alguma. Quando explicaram que estavam esperando eu e meu primo sairmos para nos pegar, ele me reconheceu e lembrou do dia em que o ajudei a fugir. Ele disse: "Se alguém encostar um dedo neles, minha turma vai descer em peso aqui e vocês vão apanhar muito." Na mesma hora, todos que nos cercavam ficaram quietos e foram embora. Foi por conta de um ato involuntário, ajudando um desconhecido, que acabei sendo salvo. Depois disso, nunca mais voltei ao fliperama e entendi por que os mais velhos que iam lá para jogar e se divertir abandonaram o local.

Ouvi histórias de amigos próximos de que o local só piorou. Brigas frequentes, tráfico e polícia constante fizeram o fliperama definhar aos poucos. Hoje, ele ainda existe, um dos poucos em atividade. Já não é mais um ambiente tóxico e perigoso como antes, mas também não tem mais a galera que ia lá para se divertir. Hoje, são mais crianças com seus pais, o que é legal, mas aquele tempo não volta mais. No começo, era tudo muito legal, aprendíamos a jogar e fazer combos insanos. Fiz alguns amigos que tenho até hoje, trocávamos ideias numa época sem YouTube para nos ensinar, era tudo na prática, um passando para o outro. Infelizmente, o local se tornou perigoso, e demorei para perceber isso. Foi preciso passar por uma situação desagradável para abandonar de vez o fliperama. Ficar ali jogando, vendo os outros jogar ou apenas trocando ideias era muito gostoso.

Acredito que essa foi a realidade de muitos fliperamas no Brasil. Com o início das Lan Houses e a internet cada vez mais acessível, os fliperamas foram aos poucos sendo extintos, assim como as locadoras. Ficam as lembranças dos contras com amigos, das disputas, mas também as lembranças ruins. De qualquer modo, o fliperama fez parte de uma geração.


Arte - Rachid Lotf

 

 

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