quarta-feira, 24 de julho de 2024

Jogos que Marcam a Alma: Como Videogames Evocam Emoções Profundas

Os jogos, em sua essência, sempre foram sinônimos de diversão. São produtos de entretenimento que, como o próprio nome sugere, servem para nos entreter. Se olharmos para os primórdios dos games, como Atari, NES e Master System, veremos que, devido às limitações tecnológicas da época, os jogos eram mais simples. Basicamente, no caso do Atari, o objetivo era fazer o máximo de pontos possível, ou, na era dos 8 bits, passar por fases desafiadoras sem uma trama complexa.

Naquela época, ainda não tínhamos grandes narrativas ou personagens com camadas bem desenvolvidas. Havia tentativas aqui e ali, mas nada que se compare aos jogos atuais, que nos fazem apegar aos personagens, sentir empatia e até mesmo nos deixam reflexivos por dias após terminá-los. É sobre esse sentimento que os jogos me despertam que eu quero falar.

Abaixo, alguns spoilers sobre os jogos citados.

Final Fantasy IX: A Jornada Emocional de Garnet

Sempre gostei de videogames e jogo praticamente todos os estilos. Tenho um apego nostálgico ao passado, mas não nego o futuro, pois ainda me divirto tanto quanto antes com os jogos atuais. A primeira vez que me apeguei a um personagem foi em 2000, jogando Final Fantasy IX. Além de ser um belíssimo jogo, tinha ótimos personagens, e foi com a princesa Garnet (Dagger) que consegui ler seus sentimentos e sua tristeza. A jornada dela no jogo não é fácil; aliás, a de nenhum personagem é. Seu relacionamento conturbado com a mãe e o carinho que desenvolve por Zidane são parte do seu desenvolvimento e crescimento ao longo do jogo. Garnet é uma personagem bondosa que muitas vezes sofre em silêncio pelo fardo que carrega. Jogando, eu queria saber como seria o desfecho de sua história e me preocupava com ela. No final, senti sua tristeza, mas, por uma reviravolta, tudo acabou bem

The Last of Us: Explorando a Complexidade Humana nos Games

O tempo foi passando e nenhum jogo ficava na minha mente como Final Fantasy IX. Joguei muitas coisas, mas não senti tristeza por um personagem como senti por Garnet. Demorou, mas em meados de 2016 joguei pela primeira vez The Last of Us, que foi o jogo mais realista que joguei até então, com uma narrativa hollywoodiana que extraiu os sentimentos dos personagens. Foi um marco para mim. Consegui me apegar aos personagens, mas foi no segundo jogo que as coisas ficaram mais intensas. The Last of Us II conseguiu me fazer sentir raiva da Abby de uma maneira que nunca havia sentido antes em um jogo, e depois de horas jogando, mostrou-me o outro lado da história, transformando minha raiva em pena. Esse foi o jogo que me fez sentir empatia a ponto de torcer mais pela Abby do que pela Ellie. No final, foi um misto de emoções, pois eu não queria que uma machucasse a outra. Poucos jogos me fizeram me importar tanto assim com um personagem.

Hellblade: Uma Imersão na Mente de Senua

Em 2021, jogando via xCloud, pude zerar Hellblade: Senua's Sacrifice. Não esperava absolutamente nada desse jogo, mas foi o primeiro a mostrar personagens com sintomas claros de esquizofrenia, no caso da protagonista, Senua. Fiquei fascinado pela maneira intensa com que mostrava o quanto ela sofria, e a experiência é ainda maior usando fones de ouvido. Fez-me pensar quantas pessoas existem por aí e sofrem com o mesmo problema que ela. O jogo foi além nesse aspecto, contando com especialistas durante seu desenvolvimento para aumentar ainda mais a imersão. Ela sofre o jogo inteiro, ouve vozes, e é desmotivada de uma maneira que transmite ao jogador. Jogando e entendendo a condição de Senua, tudo o que ela passou, o quão quebrada ela estava, me fez refletir por dias após terminar o jogo. Eles queriam passar uma mensagem, mostrar a condição de Senua, e conseguiram.

A Plague Tale: Laços de Irmandade em Tempos Sombrios

Ainda em 2021, joguei A Plague Tale: Innocence e fiquei maravilhado com a direção artística impecável, fiel à época, contando com especialistas, no caso historiadores, para retratar bem os detalhes. Adorei a história dos irmãos Amicia e Hugo, o que me fez interessar pela continuação, A Plague Tale: Requiem, que teve um salto gráfico impressionante em relação ao primeiro jogo. Aqui, tudo é maior e melhor: cenários, mecânicas e, claro, narrativa. Amicia está mais madura nesta continuação e sofre as consequências de seus atos de maneira que consegue transmitir ao jogador o que sente. A atriz que interpretou Amicia fez um trabalho brilhante, e a trilha sonora é bem emotiva. Chega um ponto em que eu só queria ver Amicia e Hugo sorrindo e ficando bem. Era bom ver os raros momentos de descontração de ambos. As expressões de Amicia conseguem transmitir o sofrimento dela e o fardo que ela e Hugo carregam. Ela tem crises de ansiedade e é perceptível quando ela tem ataques de pânico. Uma protagonista jovem e bondosa, forçada a passar por situações horríveis e a fazer coisas que jamais faria se não fosse necessário. Há momentos em que chega a dar pena dos personagens. O laço entre eles é forte. O final do jogo foi devastador, um dos mais tristes que vi. Ver Amicia solitária na cena final fez-me lembrar instantaneamente de tudo que passaram juntos desde o primeiro jogo, todo o esforço para cuidar um do outro. Confesso que meus olhos marejaram no final do jogo. Provavelmente a personagem que mais me apeguei nos jogos. Mais um jogo que me deixou pensativo por dias.


Trabalho de atuação incrível

E, para fechar, Life is Strange, que só fui jogar agora em 2024. Esse jogo é um turbilhão de sentimentos e consegue fazer o jogador se apegar aos personagens. Como eu queria ter jogado primeiro a DLC, Before the Storm, para depois jogar o jogo original. Creio que o impacto seria maior. Aqui é um drama mais comum, mundano por assim dizer, com personagens enfrentando seus problemas diários e rotinas, e me apeguei a cada um deles. No começo, achei Chloe meio insuportável, mas acompanhando, ou melhor, vivenciando sua história, acabei me apegando a ela. Jogando a DLC, fiquei feliz pela amizade dela com Rachel, e até com a própria Rachel me apeguei. O desfecho trágico e macabro que acontece com ela... Passei o jogo inteiro pensando que Chloe e Max iriam encontrar Rachel, e bem, encontraram, mas não da maneira que pensei. O desespero e choro de Chloe ao ver a amiga morta foi quase real para mim. Senti o desespero e a tristeza dela. É estranho acompanhar a história das duas e, de repente, Rachel se foi. Ela não existe mais, não há mais capítulos em sua vida, não houve despedida. Simplesmente, se foi. É difícil não se emocionar nessa cena. Senti como se tivesse perdido alguém próximo. O final do jogo também termina de maneira melancólica. Continuo pensando no jogo e nos personagens de Life is Strange.


Essa cena fica melhor se você ouvir Oasis - Stop Crying Your Heart Out

Jogos são incríveis para mim, o maior produto de entretenimento. É bom ver que alguns jogos vão além da diversão e tratam de assuntos delicados como depressão, traumas, entre outros. Eles conseguem fazer o jogador sentir o que o personagem sente, entender a situação, se importar e se envolver com o jogo. Existem personagens muito mais bem aprofundados, como Joel, que teve um passado traumático, vivenciou o auge da pandemia, perdeu sua filha e teve que reaprender a viver em sociedade, tornando-se 'pai' uma segunda vez; ou Arthur Morgan, com seu passado violento e estilo de vida perigoso, que encontrou redenção. Acho que tanto Joel quanto Arthur, mesmo que tenham atitudes egoístas ou duvidosas, fazem com que todo jogador se afeiçoe e se apegue às suas histórias. E como não esquecer de Aerith, de Final Fantasy VII? Mesmo não sendo a protagonista, ela é marcante por seu jeito doce e meigo, com um final trágico que chega a ser revoltante acompanhar toda sua história, seu passado triste e ver seu fim melancólico.

Alguns jogos nos brindam com experiências emocionais e narrativas impactantes. Às vezes, quero apenas jogar casualmente e me divertir. Há momentos em que quero um desafio na medida certa com um bom soulslike, e em outros, quero me aprofundar em uma narrativa dramática bem desenvolvida ou em jogos mais culturais. Jogos causam sensações, conseguem se comunicar com os jogadores, e venho tomando cada vez mais gosto por jogos assim. Eu não acho que jogos se tratam apenas de jogar por jogar, mas sim, de sentir o jogo. 

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