Videogame: um hobby saudável, prazeroso, divertido e, convenhamos, caro. Não basta possuir o console; é preciso renovar a biblioteca de jogos regularmente para não ficar preso no tempo. Apesar de algumas empresas ainda exagerarem nos preços, principalmente nos lançamentos, hoje em dia é muito mais fácil e acessível conseguir jogos.
Um dos principais fatores que me permite acompanhar os lançamentos é o fato de que trabalho. Nos anos 90, eu dependia dos presentes dos meus pais, que só me davam jogos em aniversários e no Natal, e mesmo assim, apenas réplicas. A internet facilitou muito com preços acessíveis e formas de pagamento que descomplicam a vida. Um jogo de R$ 300,00 no lançamento pode ser encontrado por metade do preço ou menos após seis meses. Décadas atrás, a internet era um meio incomum, e quase ninguém fazia compras online. Era difícil imaginar que se tornaria tão acessível como hoje. Outro facilitador são os serviços de assinatura, como o Gamepass, que oferecem um vasto catálogo de jogos a preços acessíveis. Para quem tem restrições financeiras, é uma excelente opção, e esses serviços crescem ano após ano.
Voltando aos anos 90, a era dourada do Super Nintendo e do PlayStation, eu não trabalhava, era jovem e não tinha acesso à internet nem a facilidades como parcelamentos. Serviços de assinatura nem se falaa. Ganhar um jogo de aniversário e um de Natal e passar o ano todo com eles era complicado, pois, eventualmente, enjoava de jogar os mesmos títulos repetidamente. Terminar um jogo, recomeçar e finalizar novamente era comum por falta de variedade. Alugar jogos era uma alternativa que quebrava um galho, mas nada se comparava a ter seu próprio jogo e jogar quando quisesse, sem a preocupação de devolver.
Mostrando todas as alternativas que conhecia, a solução era trocar jogos, uma prática muito comum em locadoras, escolas e na rua com os amigos. Contudo, havia um obstáculo: ninguém queria sair perdendo nas negociações. As trocas raramente eram justas, todos queriam levar vantagem. Isso me ensinou a desenvolver um poder de argumentação forte para não ser passado para trás.
No Super Nintendo, as coisas eram um pouco mais difíceis, pois mesmo os jogos piratas eram caros e não tão comuns. Trocar em locadoras era uma boa opção, mas era necessário estar preparado, pois obviamente não trocavam os lançamentos ou os jogos mais populares, que estavam sempre alugados. Eu passava horas negociando com os donos de locadoras, tentando convencer que meu jogo seria bom para eles e tentar pegar um jogo melhor. Uma estratégia que descobri era oferecer jogos originais que conseguia trocando com amigos, como o Super Mario World, que todos tinham e já estavam enjoados, ou jogos de Futebol Americano ou Basquete, que eram originais, mas pouco desejados. Com esses jogos originais, ia às locadoras e conseguia bons jogos em troca. Jogava até enjoar e depois trocava novamente, aumentando meu estoque de jogos de 2 cartuchos para mais de 15, só fazendo rolos.
Com o PlayStation, as coisas ficaram mais fáceis, pois os jogos piratas eram mais comuns e baratos. Meus pais me davam o console, mas os jogos eu conseguia em datas festivas. Eu tinha um porta-CD, que comprava em lojas de R$ 1,99, e carregava apenas os discos, sem me importar com as caixas. Andávamos com porta-CDs em mãos, principalmente nas locadoras, para trocar jogos, sempre tentando sair ganhando nas trocas.
Lembro que tinha um jogo do The Crow (O Corvo - filme), que era bem ruim e quase ninguém gostava. Um colega que era fã do filme, inicialmente recusou minha proposta de troca pelo Tekken 3. Usei toda minha argumentação, falando do filme que ele tanto gostava, e após quase uma hora, consegui a troca. Não era maldade ou intenção de enganar, éramos moleques. Assim como passei colegas para trás, fui passado por outros também.
Em outra oportunidade, tinha um controle paralelo escrito "Soni" e troquei com um colega pelo controle turbo dele. Troquei o controle por alguns jogos, incluindo um do Batman, que usei para conseguir um bom jogo em uma locadora. Era assim, trocando um jogo aqui, outro ali, fazendo rolos e aumentando minha coleção.
Perto do fim da geração 32 bits, as coisas ficaram mais fáceis, pois alguns amigos compraram computadores com gravadores de CD. Ficou mais fácil conseguir jogos, evitando passar uma geração inteira com três ou quatro títulos.
Às vezes, um amigo dizia que conhecia alguém com jogos para trocar, e eu ia até a casa da pessoa. Sem WhatsApp, celular ou redes sociais, íamos pessoalmente fazer as trocas, fazendo novos amigos e aumentando a coleção. Cheguei a pegar revistas com detonados de jogos na casa de desconhecidos por indicação de amigos em comum. Fiz diversos rolos, visitando bairros que nem conhecia, sempre buscando trocas.
Hoje, não troco mais. Conseguir jogos é mais fácil, seja comprando online, com facilidades de pagamento, serviços de assinatura ou mídia digital. Mas, confesso que sinto saudades daquela época. Fazia amigos facilmente, encontrava a galera nas locadoras, reuníamos para jogar multiplayer local, conversávamos até tarde e trocávamos jogos. Cada geração viveu essa época de sua maneira, mas continuo jogando e acompanhando geração após geração.


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